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Sobre este libro
Em fevereiro de 2022, quando as colunas blindadas russas avançaram sobre Kiev, muitos observadores acreditaram que seriam poucas semanas a testemunhar o fim do Estado ucraniano tal como o conhecíamos. Quatro anos depois, em junho de 2026, esse cálculo revelou-se não apenas errado, mas profundamente revelador das ilusões estratégicas que tinham acumulado nas margens da política europeia desde o fim da Guerra Fria. A guerra que Putin ordenou para durar dias tornou-se o conflito mais longo e destrutivo que o continente europeu conhece desde 1945, e não há sinal de que o seu desfecho esteja próximo — pelo menos não nos termos que qualquer das partes inicialmente imaginou. A incompreensão estratégica que presidiu ao cálculo russo de fevereiro de 2022 não foi, porém, uma anomalia isolada. Inseriu-se numa longa tradição de erros de avaliação sobre a Ucrânia que atravessa décadas de pensamento geopolítico ocidental e russo. Tanto em Moscovo como em muitas capitais europeias, a Ucrânia foi sistematicamente subavaliada: a sua coesão nacional vista como frágil, a sua vontade de combate como incerta, a sua viabilidade económica como dependente de laços históricos com a Rússia. Esta visão, profundamente errada, refletia não apenas um equívoco factual sobre a Ucrânia dos anos 2010 e 2020, mas uma lente conceptual que não conseguia imaginar que uma sociedade forjada em décadas de pressão autoritária e em oito anos de guerra de baixa intensidade no Donbas poderia mobilizar-se com a ferocidade e a disciplina que demonstrou. O colapso dessa ilusão foi, em si mesmo, um dos eventos mais reveladores da história europeia recente. Este livro nasce precisamente desse reconhecimento: o de que 2026 representa um momento de viragem singular, não porque a guerra esteja perto do fim, mas porque as condições que a sustentam e as forças que a moldam sofreram transformações estruturais que exigem análise aprofundada e síntese rigorosa. Estamos perante um conflito que deixou há muito de ser apenas um confronto armado entre dois Estados e se tornou um teste sistémico à arquitectura de segurança europeia no seu todo, à resiliência económica do Estado russo, à capacidade adaptativa das instituições ucranianas e à coerência das democracias ocidentais perante uma ameaça prolongada. Mais do que uma guerra por território, o conflito ucraniano de 2026 é uma crise de ordenamento internacional — um momento em que os princípios que regulam as relações entre Estados estão a ser testados com uma brutalidade que a diplomacia multilateral das últimas décadas havia, ilusoriamente, feito parecer obsoleta. A relevância histórica deste momento dificilmente pode ser exagerada. Em pouco mais de quatro anos, a guerra remodelou a ordem energética europeia, relançou o debate sobre a soberania estratégica do continente, empurrou países como a Alemanha e a Espanha para os maiores aumentos de despesa em defesa desde a reunificação e os anos da NATO fria, obrigou a uma reavaliação profunda do papel dos Estados Unidos como garante da segurança transatlântica — e colocou, pela primeira vez em décadas, a questão da guerra convencional de alta intensidade no centro da planificação militar europeia. Segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI), publicados em abril de 2026, os gastos militares globais atingiram um recorde de 2,89 biliões de dólares em 2025, com a Europa a registar um aumento de 14 por cento, para 864 mil milhões de dólares — o crescimento anual mais acentuado desde o fim da Guerra Fria. Para compreender o que esta viragem representa, basta recordar que, nos anos imediatamente anteriores à invasão, o debate europeu sobre defesa girava em torno de saber se a despesa dos 2 por cento do PIB exigida pela NATO era realista ou desejável. Quatro anos depois, essa meta transformou-se num piso, não num tecto, para um número crescente de aliados..